Como a nação do Brasil mudará o surf

inertiacoverO surf está assentado em solo fértil, e o Brasil é o lugar onde a semente foi plantada.

Fonte: The Inertia
Texto: Alejandro Haro
Surf está mudando. O Brasil está no caminho de se tornar o novo EUA. Se o Rio Pro é um indicador, o surf está procurando uma mudança cultural em popularidade, e, ao mesmo tempo, ele está procurando uma mudança na forma como ele é percebido pelo público não-surfista.

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Durante anos, o negócio do surf era (e ainda é, na verdade) dominado por pessoas brancas. Apesar de suas raízes na cultura havaiana, as maiores empresas de surf foram criadas por pessoas brancas. Os melhores surfistas eram, na maioria, brancos. Empresas comercializando para um público branco, em vez de uma audiência surf. Era um enigma estranho: o mercado era em grande parte branco porque as empresas faziam marketing para eles, e o mercado ficou em grande parte branco pela mesma razão. Eles criaram e impuseram o estereótipo do surfista, simplesmente aderindo ao que tinham construído. Mas tudo isso está mudando agora.

Nos últimos anos, o Brazilan Storm (tempestade brasileira) fez do mundo da competição, bem … uma tempestade. Embora tenham havido muitos antes dele, foi Gabriel Medina que abriu as comportas, e o resto do mundo não está nem perto de fazê-las fechar. Este ano, Filipe Toledo tomou as rédeas, e enquanto o ano está longe de terminar, ele está aparentando um claro favorito.

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Até poucos anos atrás, o racismo tinha mais ou menos deixado a arena do surf, tirando umas poucas exceções. Houve o desastre de Otis Carey, onde Nathan Myers escreveu uma linha em uma edição da Australian Surfing Life que foi, ao menos, uma escolha horrível de palavras. No ambiente como o que foi criado pelos meios de comunicação sociais em que, se a oportunidade se apresenta, qualquer indiscrição, não importa o quanto inocente que ela possa ter sido, será julgada à luz mais dura possível, a escolha de palavras é uma coisa muito importante. Mas o racismo no surf como um todo foi bastante limitado aos anos 80.

Coloque um grupo de surfistas hiper-talentosos e um país de fãs gritando por trás deles. O racismo se tornou um tema quente em nosso pequeno mundo. Xenofobia tornou-se uma palavra em destaque. Alegações de racismo, tanto válidas quanto não, foram jogadas na internet. Droga, a minha namorada recebeu uma mensagem no Facebook de um brasileiro dizendo a ela que eu era um racista e ela deve me odiar porque o meu site, o The Inertia, postou um vídeo de Gabriel Medina dropando a onda de alguém.

Gabriel Medina, Barra da Tijuca

Gabriel Medina, Barra da Tijuca

Isso vem de um tempo muito longínquo. Lá de quando Duke Kahanamoku estava em processo de se tornar o pai do surf moderno, foi para a América numa parada em seu caminho para os Jogos Olímpicos de 1912 na Suécia. Era o início do século, bem antes da América e o resto do mundo começar a perceber o quão ridículo é o racismo. Embora ele estivesse competindo em um cenário mundial, ele foi recusado em hotéis e restaurantes. Então, anos mais tarde, em 1972, e no meio da era do apartheid da África do Sul, Eddie Aikau não foi capaz de se hospedar num hotel em Durban porque a sua pele não era da cor certa. Em seguida, houve o desastre Otis Carey. Nathan Myers escreveu uma linha em uma edição da Australian Surfing Life que foi, se nada mais, uma escolha horrível de palavras que se transformaram em uma guerra racial. Há um milhão de outros exemplos, mas o suficiente para dizer, a conversa do racismo no surfe ainda está muito vivo. E quando Medina começou a sua campanha pelo título mundial no ano passado, o pote começou a ferver.

2014 foi um ano ruim no surfe, ou, dependendo de seu ponto de vista, um ótimo ano. Foi ruim, porque a corrida de Medina para o pódio expôs uma verdade feia sobre o surfe: o racismo corre desenfreado nos fóruns de comentários e nas praias. Ele se transformou em uma mentalidade “nós contra eles”. Mas foi um bom ano porque um brasileiro ganhou um título mundial e a bola começou a rolar para um país cheio de fãs mais fanáticos do que nunca para pôr os pés na praia. Veja a caminhada de John John Florence até a praia na sua bateria no quinto round no Rio Pro. Mesmo em Pipeline, onde John John é um filho legítimo de toda a ilha, nunca houve tamanha tietagem. As lágrimas rolaram pelo rosto das pessoas quando eles esticaram as mãos para tocá-lo. Fãs adoradores gritavam com um fervor quase religioso. Isso nunca aconteceu antes em uma escala tão grande na história do surf. Quando Medina voltou para casa no ano passado como um campeão, ele foi recebido com adoração normalmente guardada para estrelas do rock.

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O Brasil, tal como está agora, é o mais nação mais apaixonada pelo surf do planeta. E o surf nunca teve uma chance melhor de romper com suas raízes anarquistas do que agora, e apesar de muitos surfistas, inclusive eu, não querer que o surfe se torne um esporte do tipo FIFA ou CBV, o negócio do surfe competitivo mais que definitivamente quer.

O Brasil é um país que tem a competição entranhada nele. O país vê o surfe de forma diferente do que o resto do mundo. É mais esporte do que arte, mais competição do que passatempo. E para aqueles que comercializam o surfe, está parecendo um ótimo lugar para se investir.

Reconhecendo o surf from Surfari on Vimeo.

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